Durante seu discurso de vitória, Lula manifestou sua preocupação com a transição de poder: “Preciso saber se o presidente vai permitir que haja uma transição”.
Apenas alguns dos aliados parlamentares de Bolsonaro admitiram a derrota nas redes sociais, onde o bolsonarismo costuma ser muito ativo.
Bloqueios nas estrada
Ao longo do dia, caminhoneiros e outros manifestantes bloquearam rodovias em todo país para protestar contra a vitória de Lula, informou o coordenador gera de comunicação institucional da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Cristiano Vasconcellos.
Durante a noite, o juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou que a polícia libere as vias “imediatamente”. Ele determinou multa e prisão do diretor da PRF em caso de descumprimento, depois de identificar “omissão e inércia da instituição.
Vasconcellos afirmou que os agentes atuaram em vários pontos, mas admitiu dificuldades: “Liberamos um e surge outro”.
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As autoridades reforçaram a segurança na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
“Não vamos aceitar perder o que conquistamos até agora, o que queremos é que prevaleça o que está na nossa bandeira: ordem e progresso. Não aceitamos a forma como essa eleição aconteceu”, disse Antoniel Almeida, 45, em Barra Mansa, um dos pontos de protesto no Rio de Janeiro.
A B3 fechou em alta de 1,31%, enquanto o real se valorizou em relação ao dólar, a 5,25.
‘Situação difícil’
Consciente dos desafios que enfrentará a partir de 1º de janeiro, quando será empossado, Lula reconheceu em seu discurso que governará em “uma situação muito difícil” e destacou a necessidade de restabelecer a unidade dos brasileiros.
A transição pode representar um desafio para Lula, indicou Paulo Calmon, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília.
“Lula deve ter cuidado, primeiro com um ‘terceiro turno’: com qualquer desafio que Bolsonaro e seus aliados possam criar, como (Donald) Trump nos Estados Unidos, para deslegitimar sua vitória e mobilizar seu eleitorado contra ele”, afirmou à AFP.
Lula teve dois milhões de votos a mais que Bolsonaro, a vitória mais apertada em um segundo turno na história da democracia brasileira, após uma campanha polarizada e tensa.
Marco Antônio Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas, afirmou que o presidente eleito terá que trabalhar para “ampliar a legitimidade do governo”, com a presença no Executivo de “setores não petistas”.
O Congresso, que em 2 de outubro se inclinou à direita com a eleição de conservadores e aliados de Bolsonaro, deve apresentar uma oposição mais forte do que as que Lula enfrentou em seus dois outros governos.
Promessas
Lula, que governou o Brasil de 2003 a 2010, chega ao poder com o apoio dos mais vulneráveis, grupo que possui uma memória afetiva da bonança sob sua administração.
Ele fez várias promessas para melhorar a economia, incluindo aumentar o salário mínimo e reforçar os programas sociais.
Adriano Laureno, da consultoria Prospectiva, disse que o resultado de Bolsonaro, que foi o segundo colocado mais bem votado na história do país, significa que Lula terá uma oposição “forte, organizada, inclusive nas ruas”.
Durante a campanha, o líder do PT destacou as conquistas socioeconômicas de seus dois primeiros mandatos, como a saída da pobreza de mais de 30 milhões de brasileiros graças a iniciativas sociais financiadas com o ‘boom’ das commodities.
O terceiro mandato de Lula não contará com o mesmo cenário favorável: embora a economia dê sinais de melhora, com crescimento, menos inflação e mais emprego, está longe da prosperidade dos anos 2000 e enfrenta um mundo em risco de recessão global.
Se não forem atendidas, as expectativas podem voltar como um bumerangue, afirmam os analistas.
“É um governo que começa com muita dificuldade na parte econômica. Vai assumir num cenário internacional complicado, numa possível recessão, com juros muito altos no Brasil e mais essa bomba fiscal para lidar” (400 bilhões de reais), afirmou Laureno.