Volume pluvial acumulado em março supera índices históricos, provoca destruição em ruas e imóveis e acende risco à saúde da população. Governo intensifica ações de prevenção e reparo. Especialistas alertam para os riscos à saúde provocados pelas enchentes
Força da chuva derrubou um muro de 6 metros de altura sobre um carro estacionado na garagem em Vicente Pires -
(crédito: Bruna Gaston CB/DA Press)
O volume de chuvas registrado em março no Distrito Federal ultrapassa a média histórica e vem deixando um rastro de prejuízos materiais e riscos à saúde. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado chegou a cerca de 300 milímetros, acima dos 220 milímetros esperados para o período. O índice também supera o registrado no mesmo mês do ano passado. Na madrugada dessa quarta-feira (25/3), a capital entrou em alerta laranja, que indica perigo, antes de recuar para alerta amarelo ao longo do dia. Ainda assim, o cenário segue preocupante: quedas de árvores, muros derrubados, vias destruídas e alagamentos têm afetado diferentes regiões administrativas.
Em Vicente Pires, a força da água derrubou um muro de seis metros de altura, construído por moradores há cinco anos para conter enxurradas na Avenida da Misericórdia. A estrutura, que custou cerca de R$ 22 mil, não resistiu à pressão. O impacto atingiu diretamente o morador Celismar Pinto, 48 anos. O carro dele, uma Mercedes C180, estava estacionado próximo ao muro e foi destruído pelo concreto. Além do veículo, o portão da residência também foi danificado.
Celismar soube do ocorrido por telefone. "Eu estava fora de casa quando a vizinha me ligou dizendo que o muro tinha caído em cima do meu carro", relatou. Sem cobertura do seguro para fenômenos naturais, ele ainda não sabe o tamanho do prejuízo. "Agora preciso recomeçar, tirar os entulhos e tentar recuperar o que for possível", disse. Apesar das perdas, ele destaca o alívio: "Fico feliz que ninguém se machucou".
Em Taguatinga, os efeitos da chuva revelam problemas estruturais antigos. Na QNA 4, parte do asfalto cedeu, abrindo uma cratera no meio da via. Moradores atribuem o problema à drenagem insuficiente e à ausência de bocas de lobo. O administrador predial Alex Alves, 38, conta que o impacto foi além da rua. "O elevador do prédio parou de funcionar, e tivemos que subir escadas. É consequência direta da drenagem precária", afirma. Segundo ele, o receio de prejuízos fez com que evitasse sair de carro durante o dia.
Funcionária de um restaurante na região, Jiumara Araújo Alves, 45, relata que o asfalto apresentava desgaste desde a última semana. Com a chuva, a situação se agravou rapidamente. "A água levou pedaços inteiros da pista. Teve carro sendo danificado e eu nem consegui ir embora direito", conta.
Queda de árvore
No Taguaparque, uma árvore antiga caiu durante a madrugada, sem deixar vítimas, mas reforçando o cenário de instabilidade causado pelas rajadas de vento e pelo solo encharcado. O impacto das chuvas também se reflete no cotidiano de comerciantes e motoristas. Wagner Mendes, 47, que trabalha há mais de 20 anos na região, afirma que os problemas no asfalto são recorrentes. "Eles tapam, mas é só começar a chover que tudo aparece de novo. Parece maquiagem", critica. Ele relata prejuízos frequentes: "Já perdi pneu, tive problema na suspensão. E não é um ponto isolado".
O aposentado Neirivan Aquino enfrenta situação semelhante na Praça do Bicalho. "Você não vê o buraco quando chove. Já caí em um. Eles tapam hoje e amanhã abre de novo", relata. Segundo ele, mesmo sem danos imediatos graves, o desgaste no veículo é inevitável.
Nos dois primeiros meses do ano foram atendidas 105 ordens de serviço
(foto: Imagens cedidas ao Correio Braziliense)
Danos sanitários
Além dos danos materiais, especialistas alertam para os riscos à saúde provocados pelas enchentes. O médico infectologista Marcelo Neubauer explica que o contato com água contaminada pode desencadear doenças graves. "A leptospirose é uma das principais preocupações. É causada por uma bactéria presente na urina de ratos e pode levar a quadros severos, com necessidade de internação e até risco de morte", aponta.
Segundo o médico, infecções de pele e problemas gastrointestinais também são comuns nesse cenário. "A água de enchente é contaminada. O simples contato ou ingestão pode causar infecções e quadros de disenteria", explica, reforçando que o período chuvoso ainda favorece a proliferação do mosquito transmissor da dengue. "Com mais água parada, aumenta o número de criadouros e, consequentemente, os casos da doença", completa.
Força-tarefa
Em Ceilândia, o volume de chuvas mobilizou o poder público. Após as precipitações da noite do último dia 15, o Governo do Distrito Federal iniciou uma força-tarefa no Condomínio Privê e no Setor O. Equipes da administração regional, do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), do programa GDF Presente e da Novacap atuaram na retirada de detritos, limpeza de vias e desobstrução de bocas de lobo. Uma cratera identificada no Setor O levou ao isolamento da área para evitar acidentes.
A Novacap afirma que mantém equipes em atuação diária para recuperar vias danificadas, especialmente durante o período chuvoso. Segundo a companhia, o objetivo é garantir condições mínimas de trafegabilidade. Dados do órgão mostram que, apenas nos dois primeiros meses de 2026, foram atendidas 105 ordens de serviço relacionadas a tapa-buracos. Em 2025, foram 771, e em 2024, 966. As ações se concentram principalmente no Plano Piloto, Gama, Ceilândia e outras regiões com maior demanda. Atualmente, cerca de 350 toneladas de massa asfáltica são utilizadas semanalmente nas operações.
A massa utilizada é produzida na usina da própria Novacap, a partir da mistura de brita, areia e derivados de petróleo. Segundo o engenheiro civil Maurílio Tibery, a qualidade do pavimento depende de três fatores: projeto adequado, material de qualidade e execução eficiente. Apesar da estrutura disponível e das equipes em campo, moradores apontam que as soluções ainda são paliativas diante da intensidade das chuvas.
Instabilidade
De acordo com a meteorologista Andrea Ramos, o comportamento das chuvas reflete características típicas do verão, mesmo com a chegada do outono. "Estamos em uma estação de transição. O outono ainda mantém características do verão, com calor e alta umidade. Essa combinação favorece a formação de nuvens de tempestade, que provocam chuvas intensas, rajadas de vento, trovoadas e até granizo", explica.
De acordo com a especialista, o chamado corredor de umidade vindo da Amazônia continua influenciando o clima na região. "Tem dias sem chuva, mas quando chove, chove forte. É um padrão irregular, típico desse período", afirma Andrea. Ela destaca que, apesar da variabilidade, o comportamento climático segue dentro do esperado. "Ainda não há um desvio significativo. A tendência é que, a partir de maio, as chuvas comecem a diminuir gradualmente, com a transição para o período seco", conclui.
Fonte: Correio Braziliense