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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Opinião: Raul já cruzou a linha da vilania em “Três Graças” faz tempo



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Narrador Inteligente Ouvir Matéria

 


A novela das nove da Globo parece insistir em tratá-lo como um garoto perdido; existe uma tentativa clara de construir uma camada psicológica para explicar o personagem

*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.

Raul (Paulo Mendes) em "Três Graças" (Beatriz Damy/Globo )

A história do Raul (Paulo Mendes) em “Três Graças” anda causando uma revolta enorme em quem assiste a novela. E não é uma revolta pequena, passageira. É aquele incômodo que vai crescendo capítulo após capítulo porque a novela parece insistir em tratá-lo como um garoto perdido, quando ele já cruzou a linha da vilania faz tempo.

Existe uma tentativa clara de construir uma camada psicológica para o personagem — o fato de ele ter sido comprado, ser filho da Samira (Fernanda Vasconcellos), a criação sob a influência tóxica da Arminda (Grazi Massafera). Tudo isso ajuda a explicar parte da formação dele. Mas explicar não é justificar. Raul não é uma criança. Ele é maior de idade na trama, é um homem rico, criado com acesso a conforto, dinheiro e alternativas. E ainda assim fez escolhas que destruíram vidas.

O que mais incomoda não é o fato de ele ter feito uma dívida com drogas. É o que ele fez depois. Ao invés de assumir a própria irresponsabilidade, ele deixou que o peso do problema caísse sobre quem já vive esmagado pelo sistema. Joélly (Alana Cabral), a filha da cuidadora da avó dele, uma moradora da Chacrinha, acabou envolvida numa engrenagem absurda que levou à venda de uma criança para pagar uma dívida que ele poderia ter resolvido de outra forma.

Estamos falando de alguém que mora numa casa cheia de objetos valiosos. Um único vaso vendido para o Kasper (Miguel Falabella), por exemplo, resolveria a situação. Mas isso exigiria assumir culpa, perder status, enfrentar consequências. Era mais fácil deixar que o desespero escorresse para baixo.

E não parou aí. Ele sabia quem estava tendo contato com a criança. Sabia das conexões perigosas. O mínimo que se espera de alguém que ainda tem um fiapo de consciência é transparência. Mas ele se omite, esconde informação, não alerta ninguém. Jorginho (Juliano Cazarré) morreu por causa dessa cadeia de negligências, e Raul segue praticamente intacto. É como se a novela estivesse dizendo que a irresponsabilidade dele é um erro juvenil, quando, na prática, ela tem consequências fatais.

Raul representa um tipo de vilania muito contemporânea. Não é o vilão clássico que planeja tudo friamente como Ferette (Murilo Benício), nem a manipuladora estratégica como Arminda. Ele é o vilão do privilégio inconsequente. Aquele que acredita, mesmo sem verbalizar, que seu drama pessoal é sempre maior do que o dos outros. Que seus problemas merecem solução imediata, ainda que isso custe o sofrimento irreversível de quem está em situação vulnerável.

Há algo estrutural nisso. Quando um personagem rico, branco e protegido socialmente causa danos profundos e continua circulando com relativa impunidade, a narrativa precisa ter muito cuidado para não naturalizar esse mecanismo. Porque o que está em jogo não é apenas a história individual dele, mas a mensagem que se passa sobre responsabilidade.

Eu, sinceramente, espero que não venha uma redenção apressada baseada apenas no trauma da origem. Descobrir que foi comprado, que cresceu numa mentira, que teve uma criação problemática, não apaga o fato de que ele tomou decisões graves já adulto. Se a novela optar por absolvê-lo emocionalmente sem fazê-lo pagar de maneira concreta pelas consequências do que fez, vai soar como mais um exemplo de como o sofrimento dos privilegiados costuma ter mais peso narrativo do que o das vítimas.

Raul pode até não ser o vilão mais barulhento da história. Mas ele já é tão nocivo quanto Ferette e Arminda. Só que de um jeito mais silencioso — e talvez por isso mesmo mais perturbador. Porque ele não parece um monstro. Parece um rapaz comum que sempre teve escolha e, repetidamente, escolheu o caminho mais confortável para si, mesmo quando isso custava tudo para os outros. E isso não é imaturidade; é caráter.

Fonte: Portal Léo Dias 

Açaí Nova Cruz

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