Da Asa Norte aos grandes papéis da tevê, Juliano Cazarré fala sobre carreira, espiritualidade, paternidade e a busca por sentido em tempos de incerteza. Ator interpreta Jorginho Ninja, um ex-bandido convertido ao Evangelho em "Três Graças"
(crédito: Nanda Araújo)
Na memória de Juliano Cazarré, a infância ainda tem o cheiro das árvores da Asa Norte, o ritmo calmo das quadras de Brasília, as águas minerais do Parque Nacional e a sensação de pertencimento que se constrói aos poucos. Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas criado no Distrito Federal, foi aqui que ele aprendeu a observar o mundo com atenção — hábito herdado do pai, o jornalista e escritor gaúcho/brasiliense Lourenço Cazarré.
Filho de palavras e silêncios, Juliano cresceu entre livros, conversas e inquietações. Não era fã das disciplinas exatas, tampouco sonhava, na adolescência, com os palcos. O teatro entrou em sua vida quase por acaso, no terceiro ano do ensino médio, durante uma feira cultural no Colégio Leonardo da Vinci. Incentivado pelo pai, decidiu prestar artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB), e essa escolha mudaria seu destino. No câmpus, encontrou um ambiente fértil, no qual talento e rigor conviviam lado a lado. Sob a orientação do diretor uruguaio Hugo Rodas (1939/2022), participou de montagens importantes e descobriu que o teatro não era apenas palco, mas, sobretudo, uma forma de habitar outras vidas.
Em 2007, Juliano fez as malas e seguiu para São Paulo. Já gabaritado nos palcos e no cinema, estreou na televisão na série Antônia e, poucos anos depois, entrou definitivamente no radar do grande público ao viver Ismael em Insensato coração (2011), de Gilberto Braga. O reconhecimento nacional viria, no ano seguinte, com força, em Avenida Brasil (2012), de João Emanuel Carneiro, quando deu vida ao intenso Adauto. E consolidava-se com o protagonismo em Amor à vida (2013), de Walcyr Carrasco. Desde então, o filho adotivo de Brasília não saiu mais de cena.
Na semana em que se despediu de Jorginho Ninja — personagem marcado por violência, culpa e redenção em Três Graças —, o ator de 45 anos fechou mais um ciclo significativo. Ex-bandido que, no passado, aterrorizou a vida de Gerluce, vivida por Sophie Charlotte, o personagem encontrou na fé e na paternidade um caminho de reconstrução. Tentando salvar a filha, Joélly (Alana Cabral), e a neta recém-nascida, foi assassinado por Samira (Fernanda Vasconcellos) em uma sequência marcada pela visceralidade. Para Juliano, a construção desse personagem exigiu mais do que técnica, mas também escuta e coragem para lidar com a desconfiança inicial do público.
"O maior desafio na construção do Jorginho foi realmente criar alguém que transmitisse um arrependimento genuíno. O mais difícil era conquistar a confiança do público. Por ser um homem com um passado de muitas ações erradas, era compreensível que as pessoas desconfiassem dele", explica Cazarré. Segundo o ator, não bastava interpretar um convertido, mas era preciso fazer com que o espectador acreditasse naquela transformação. "O grande desafio era ganhar o coração da audiência. E acho que conseguimos", aposta.
Para ele, essa conquista passa pelo momento final do personagem. Jorginho morre angustiado, em busca da filha e da neta, mas, no instante derradeiro, encontra serenidade. "Ali, ele alcança a paz que procurava. Creio que o público cristão reconhece uma alma perdoada por Cristo, que alcançou a vida eterna", afirma. Mais do que um desfecho dramático, Juliano vê nessa trajetória uma reflexão existencial. "O arco do personagem é a jornada de alguém em busca da felicidade eterna. A vida na Terra é marcada pelo sofrimento, pela sombra da morte. A felicidade plena só pode existir no céu", analisa o gaúcho/brasiliense.
Presente no elenco de produções de sucesso como O outro lado do paraíso (2017), Amor de mãe (2019) e Pantanal (2022), o ator acredita que essa perspectiva ainda é rara nas novelas brasileiras. "Nossas novelas nasceram em um contexto de ceticismo em relação ao religioso. Mostrar um personagem em busca desse céu foi novo e enriquecedor", defende o católico praticante, reconhecendo que sua própria fé atravessou o trabalho. "Muitas vezes, eu conhecia a terminologia, a palavra certa. Na cena da Parábola do Filho Pródigo, por exemplo, isso vem das minhas vivências", conta.
Masculinidade possível
O personagem foi construído também a partir da experiência pessoal do ator. "Eu tinha repertório de vida para usar", resume. Para ele, Jorginho representa um modelo possível de masculinidade contemporânea. "É um homem forte, que defende a família, mas que dobra os joelhos diante de Deus. É importante que uma criança veja o pai reconhecer que existe algo maior", defende o libriano.
Essa força não exclui a sensibilidade. Pelo contrário: "O Jorginho se emociona. Quando a filha o perdoa, quando a Gerluce reconhece o esforço dele, até quando come um pedaço de bolo da Lígia (Dira Paes)". Na visão do ator, essa capacidade de sentir é essencial. "O homem precisa se emocionar com o belo e com a tragédia. Mas manter força interior para lutar pelo que é certo, bom, belo e verdadeiro", pontua Cazarré, que acumula prêmios na carreira, como o de Melhor Ator no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo filme Boi Neon, em 2017.
Pai na vida real, Juliano levou essa vivência diretamente para a tela. "Ser pai me inspira muito. É um repertório que vem de dentro", admite ele, que tem com a esposa, Letícia, seis filhos. Ele cita, por exemplo, a cena em que leva Joélly à escola. "Quando digo: 'Minha filha vai entrar e vai estudar', imagino como seria proteger meu filho de qualquer coisa, até do bullying." Da mesma forma, o desespero do personagem diante do desaparecimento da filha nasce da experiência real: "Quem é pai sente tudo isso com muita intensidade".
Fora dos estúdios, a rotina é um exercício permanente de equilíbrio. Em casa, ele participa ativamente da rotina: leva os filhos à escola, ajuda no café, tenta ir à missa, reza no caminho para o trabalho, volta correndo para contar histórias à noite. "Vamos equilibrando os pratinhos", diz, com simplicidade. A fé, embora central, nunca foi, segundo ele, um obstáculo direto na carreira, mas já provocou ruídos. "No início, pensei: será que preciso falar disso? Depois entendi que precisava ser sincero", relembra.
Um episódio marcou essa percepção: uma produtora afirmou que ele parecia "muito crente" para determinado projeto. Juliano encarou como parte do processo. "Tenho confiança de que Deus cuida da minha carreira", garante. E cita o personagem como prova: "Jorginho foi um presente que chegou pelas mãos do autor Aguinaldo Silva e do diretor Luiz Henrique Rios, mas tenho certeza de que foi Deus quem me confiou".
Legado, justiça e preconceito
Ao falar de legado, Juliano é direto: "O mais importante é o exemplo de um homem honrado". Para ele, honra se constrói no cotidiano: na honestidade, no respeito e no cuidado com a família. "Cada pai faz isso à sua maneira, mas precisa ser feito de forma correta", aponta. Sobre perdão e justiça, o ator mantém uma visão equilibrada. "Todos somos pecadores. Deus perdoa, mas isso não exclui a justiça dos homens", afirma. Ele critica a impunidade no país e defende penas cumpridas integralmente. "Torço para que o criminoso se converta", diz, "mas isso não significa que deva ser solto antes."
Juliano também reflete sobre o preconceito contra cristãos no meio cultural. "Existe uma ideia de que somos caretas. É um preconceito ridículo. O cristão é uma pessoa normal, que ri, brinca, trabalha, erra, tenta acertar", observa. Para ele, Jorginho ajudou a desmontar esse estereótipo. E, em tempos de ansiedade crônica, hiperconexão e esgotamento emocional, enxerga uma busca crescente por sentido. "As promessas da pós-modernidade se mostraram vazias. Vivemos em um mundo viciado em celular, pornografia, remédios", avalia. Diante desse cenário, ele percebe uma reaproximação da espiritualidade. "Muita gente está buscando outras respostas. E muitas acabam encontrando o caminho da conversão", conclui.
Fonte: Correio Braziliense

















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