Publicidade

Publicidade



quarta-feira, 25 de março de 2026

Vacinação contra HPV avança, mas mortes ainda preocupam



Compartilhe

Narrador Inteligente Ouvir Matéria

 



Cobertura desigual e rastreamento falho desafiam prevenção

 © Marcelo Camargo/Agência Brasil


A vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) avança na América Latina, mas a região ainda registra mortes por câncer de colo do útero, uma doença considerada altamente prevenível. O alerta consta de estudo publicado em fevereiro na revista científica The Lancet, que analisou dados de 35 países e territórios da América Latina e do Caribe.

O HPV é o vírus responsável pela infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, afetando pele e mucosas. Apesar da disponibilidade de vacinas, a cobertura ainda é desigual entre os países. Na América Latina, varia de 45% a 97%; no Caribe, de 2% a 82%. Os índices estão abaixo da meta global da Organização Mundial da Saúde, que prevê 90% das meninas vacinadas até os 15 anos.

No Brasil, a cobertura em 2024 chegou a 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde intensificou a vacinação, adotando dose única e ampliando o público para jovens de 15 a 19 anos não vacinados.

Em 26 de março é celebrado o Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero.

Rastreamento

Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flavia Miranda Corrêa, a América Latina apresenta melhores resultados que o Caribe tanto em vacinação quanto em rastreamento. Ainda assim, o principal problema é o modelo adotado na maioria dos países: o rastreamento oportunístico.

Nesse modelo, o exame é feito apenas quando a mulher procura o serviço de saúde por outro motivo ou solicita o procedimento. “A gente sabe que esse modelo de rastreamento oportunístico é muito menos eficiente do que um rastreamento organizado, que tem todos os critérios a serem seguidos e é um rastreamento de base populacional”, explicou a médica em entrevista à Agência Brasil.

Especialistas avaliam que esse formato contribui para diagnósticos tardios e maior mortalidade. Já o rastreamento organizado prevê identificação da população-alvo — mulheres de 25 a 64 anos —, convocação ativa e busca de quem não comparece, além de sistemas integrados para acompanhamento dos casos.

“Não adianta rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento”, destacou a médica.

Flavia Corrêa reforçou que a maior deficiência está no modelo de rastreamento que continua oportunístico na maioria desses 35 países e, também porque, não sendo um rastreamento organizado, não há garantias de que todos os procedimentos vão estar disponíveis.

Prevenção

Na América Latina, somente a Venezuela ainda não introduziu a vacinação contra o HPV. No Brasil, o imunizante foi incluído no Calendário Nacional de Vacinação em 2014 e a distribuição é inteiramente gratuita.

“A gente está se aproximando da meta global de 90% de meninas vacinadas até os 15 anos, que é o que a OMS propõe para eliminação do câncer do colo de útero, e acredito que a gente chegará lá”.

Flavia ressaltou a importância de que também os meninos se vacinem, para que eles se protejam dos tipos de câncer causados pelo HPV que incluem os cânceres de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais.

Teste DNA-HPV

Em janeiro, a Fundação do Câncer lançou a atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, orientando a substituição gradual do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV.

Ainda assim, a citologia permanece como principal método na maioria dos países analisados. O teste molecular foi implementado em nações como Argentina, Brasil, Chile e México, além de alguns países do Caribe.

No Brasil, há avanços na adoção do novo exame e na estrutura de atendimento, com encaminhamento da atenção primária para níveis secundário e terciário. 

A mulher vai fazer o rastreamento na atenção primária e, em caso de diagnóstico positivo, será encaminhada para a atenção secundária para fazer a investigação diagnóstica. Uma vez esta sendo concluída, a paciente vai para o nível terciário.

Flávia Miranda Corrêa destaca que, como cada um desses níveis tem sistemas diferentes de informação, eles precisam dialogar, ou interagir, para que a mulher não fique perdida nessa linha de cuidado. “Se a gente não tiver a interoperabilidade desses sistemas, a gente pode perder a navegação da mulher e ela não concluir o tratamento, o que é o maior problema no Brasil”.

Prevenção e sintomas

A especialista explica que lesões precursoras do câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para evoluir, o que amplia a janela de diagnóstico precoce. Quando identificado nessa fase, o tratamento tem alta taxa de sucesso.

Entre os sintomas da doença estão sangramentos fora do período menstrual, após relações sexuais ou na pós-menopausa, além de corrimento persistente. Em estágios mais avançados, podem surgir alterações urinárias ou intestinais.

Estratégia global

O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, defende a transição para programas organizados de rastreamento, com convite ativo e acompanhamento das pacientes. Esse modelo contribuiu para a redução da doença em países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca.

De acordo com o estudo da The Lancet, a integração entre vacinação, rastreamento e tratamento é essencial para atingir a meta global: 90% das meninas vacinadas, 70% das mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados.

Com essa cobertura, a Organização Mundial da Saúde projeta que a incidência do câncer de colo do útero pode cair a níveis residuais nas próximas décadas.

Proadi

Para que essa redução também aconteça no Brasil, projetos desenvolvidos no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) busca ampliar a capacidade do Sistema Único de Saúde de detectar precocemente a doença.

As iniciativas envolvem capacitação de profissionais da atenção primária, ampliação do rastreamento com novas tecnologias e redes de diagnóstico digital.

O projeto Detecta APS, executado pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz e pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atua na qualificação da detecção precoce do câncer na atenção primária. Mais de 7,7 mil profissionais de saúde já foram capacitados.

Já o projeto Super Centro Brasil, liderado pelo A.C.Camargo Cancer Center, criou uma rede nacional de diagnóstico em anatomia patológica com uso de telemedicina. A estrutura tem capacidade para mil laudos por dia e 400 mil exames por ano.

A meta é reduzir o tempo médio de diagnóstico de 25 para cinco dias.

Mulheres indígenas

Outra frente do Proadi-SUS é o projeto AURORHA, conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento e pela BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo. A iniciativa busca ampliar o rastreamento com testes moleculares de HPV-DNA, considerados mais sensíveis para detectar alterações precursoras da doença.

Entre as estratégias estão auto coleta do exame, ampliação da rede laboratorial e qualificação do rastreamento organizado no SUS.

O projeto Cuidado Especializado Digital, executado pelo Hospital Sírio-Libanês, leva rastreamento e diagnóstico para territórios indígenas da Amazônia. Já foram realizados 948 exames realizados por autocoleta de HPV, com cobertura potencial para 14 mil mulheres e atuação nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas Alto Rio Solimões e Vale do Javari.

“Embora seja uma doença em grande parte evitável, ainda existem desigualdades importantes, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Fortalecer essas ações no SUS é fundamental para reduzir a incidência e a mortalidade pela doença", destaca Maria Alice Rocha, representante do Proadi-SUS e diretora-executiva de Pessoas, Experiência do Cliente, Marketing, Sustentabilidade e Impacto Social da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Fonte: Agência Brasil 

Açaí Nova Cruz

Publicidade Google