NOTA DE REPÚDIO
Pelo respeito às vítimas, pela dignidade das mulheres e pela responsabilidade no exercício da autoridade policial.
Manifestamos nosso profundo repúdio aos comportamentos atribuídos a um policial militar durante o atendimento de uma ocorrência de violência contra uma mulher, registrada em 2 de outubro de 2026, no município de Macajuba, Bahia.
O episódio merece atenção e reflexão, pois envolve uma mulher que, após sofrer uma agressão com arma branca, precisou buscar atendimento hospitalar e acionou a Polícia Militar na expectativa de receber proteção e ter as providências necessárias adotadas.
Segundo os relatos, a vítima foi atingida por um golpe de faca na região esquerda do peito, supostamente desferido por uma mulher com quem já havia tido um conflito anterior, que também envolveu agressões físicas com garrafas e deixou lesões na cabeça da vítima.
Diante da gravidade da nova agressão, a Polícia Militar localizou a suspeita e informou que ambas seriam conduzidas a Itaberaba, em razão da ausência de plantão policial em Macajuba.
A vítima, preocupada com sua segurança e diante do histórico de violência entre as envolvidas, questionou a decisão de transportá-las na mesma viatura e solicitou que a suspeita fosse conduzida no compartimento destinado a presos.
A condução, entretanto, ocorreu de maneira que merece ser esclarecida: a vítima foi transportada no banco traseiro, ao lado de um policial, enquanto a suposta autora foi acomodada no banco dianteiro, ao lado do outro policial, utilizando cinto de segurança e permanecendo com as pernas cruzadas.
Mais grave ainda foi a atitude atribuída ao policial que liderava a guarnição. Diante da manifestação de inconformismo da vítima, ele teria afirmado que, se ela não calasse a boca, seria conduzida no camburão.
Mas os relatos não se limitam a esse episódio.
Durante o atendimento hospitalar, enquanto a vítima ainda recebia cuidados médicos, o mesmo policial, em uma ligação telefônica, teria feito comentários depreciativos sobre sua conduta, insinuando que ela gostava de baixaria, que estava desrespeitando a polícia e utilizando expressões como tirada para desqualificá-la.
É profundamente preocupante que uma mulher, em um momento de fragilidade física e emocional, tenha de lidar com comentários que, segundo o relato, a diminuíam e colocavam em dúvida sua postura, em vez de receber o tratamento respeitoso que se espera de um agente público.
A vítima de uma violência não pode ser transformada em alvo de julgamentos, ironias ou intimidações por parte daqueles que têm o dever de protegê-la.
Manifestar preocupação com a própria segurança não é desrespeitar a polícia. Questionar um procedimento não é cometer uma infração. E buscar proteção não significa aceitar passivamente qualquer conduta de quem exerce autoridade.
É fundamental destacar que a autoridade policial deve ser exercida com equilíbrio, responsabilidade, legalidade e respeito à dignidade humana. A farda representa um compromisso com a sociedade, e não um instrumento para impor silêncio ou constrangimento.
Ressaltamos, ainda, que a guarnição era composta por dois policiais e, conforme as informações disponíveis, apenas um deles teria adotado a postura questionada. O outro permaneceu neutro, não sendo apontado como autor das falas relatadas. A apuração deve respeitar essa distinção e individualizar as responsabilidades.
A existência de testemunhas e de registros audiovisuais torna ainda mais importante que os fatos sejam devidamente esclarecidos, com a preservação das provas e a garantia de que todas as pessoas envolvidas possam ser ouvidas.
Diante da gravidade dos acontecimentos relatados, as medidas cabíveis serão adotadas para que os fatos sejam formalmente apurados. O caso será levado ao conhecimento da Corregedoria da Polícia Militar da Bahia, bem como do Comandante do 11º Batalhão da Polícia Militar, em Itaberaba, para que sejam tomadas as providências que entenderem cabíveis diante dos fatos apresentados.
Não se busca condenação antecipada de qualquer agente. Busca-se apuração séria, imparcial e transparente, com a individualização das responsabilidades e o respeito ao devido processo legal.
Nosso repúdio não é contra a instituição Polícia Militar nem contra os profissionais que exercem sua missão com dedicação, respeito e compromisso com a população. É contra toda e qualquer conduta que, uma vez comprovada, represente abuso de poder, intimidação ou desrespeito aos direitos de uma cidadã.
A autoridade não está acima da lei. O uniforme não retira de ninguém o direito à dignidade, ao respeito e à proteção.
Uma mulher que acaba de sofrer uma agressão não deveria precisar lutar também para ser respeitada por quem foi chamado para ajudá-la.
Que este episódio sirva de alerta e reflexão. Que a proteção das vítimas seja sempre prioridade e que o exercício da autoridade jamais seja confundido com autoritarismo.
Respeito às vítimas. Responsabilidade no exercício da autoridade. Justiça e dignidade para todas as mulheres.
Macajuba, Bahia, 3 de outubro de 2026.






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